Fraudes com Bitcoin: qual rentabilidade é indicativa de fraude?

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Na perpetuação de fraudes financeiras, uma questão relevante para o fraudador é determinar a dimensão do ganho a ser oferecido para que suas vítimas se interessem pela transação.

Normalmente, a rentabilidade oferecida tem que ser adequada ao momento econômico e às características locais da economia na qual se está a aplicar o esquema.

Se a rentabilidade de ativos livre de risco que os agentes estão recebendo, naquela economia em particular, for de, digamos, 6% ao ano, uma fraude aventando a rentabilidade de 3% ao mês seria já bastante atraente, capaz de motivar muitos investidores a correr o risco no novo e desconhecido negócio.

Em outras situações, seria preciso oferecer um ganho superior para mover os participantes em potencial e criar a noção de que a oferta consiste na melhor oportunidade de suas vidas. Assim, se a taxa básica livre de risco for de 20% ao ano, o fraudador teria que oferecer valores superiores, como 10 ou 15% ao mês.

Entretanto, esse não é o único fator atuando na definição da rentabilidade oferecida. Há, ao menos, dois outros aspectos relevantes. Primeiramente, o valor da rentabilidade prometida dependerá do controle da velocidade de captação que o perpetuador da fraude pretende imprimir a sua operação.

Charles Ponzi ofereceu 50% de retorno em noventa dias, mas pagou seus primeiros investidores antes do prazo contratado, acelerando a captação de recursos. Por outro lado, a velocidade de captação desejada pode ser reduzida, permitindo ao fraudador administrar suas obrigações, aceitando mais investimentos ou reduzindo a entrada de capitais, objetivando manter o esquema em funcionamento.

Outro aspecto determinando a rentabilidade de um esquema financeiro fraudulento consiste no fato de que nem todas as fraudes nascem como fraudes. Por vezes, são negócios mal elaborados ou que sofreram revezes ao longo de suas operações, cuja derrocada seus gestores se recusam a aceitar, acreditando serem capazes de superar as dificuldades.

Nesse ponto, passam a jogar jogos contra os direitos dos stakeholders (investidores, clientes, comunidade, meio-ambiente, administração pública).

Gestores de investimento, por exemplo, temendo informar a seus clientes a respeito de perdas em suas carteiras, passam a reportar pequenos ganhos superiores aos observados no mercado, mantendo desse modo sua reputação de financista e, principalmente, evitando que seus clientes retirem seus recursos, reduzindo a remuneração por seus serviços.

Esse parece ter sido o caso de Bernie Madoff que, certamente, não se iniciou no mundo dos investimentos com uma ideia preconcebida e aplicar um golpe. Foi maquiando um e outro relatório de clientes, que ele acabou levando à falência metade da elite de Palm Beach.

Finalmente, no tocante a rentabilidade oferecida ser fixa ou variável. Pode-se afirmar que há grande indício de ser uma fraude quando se promete retornos fixos. Porém, retornos fixos são coisa do passado, de quando um fraudador, sem uma equipe grande, não podia controlar uma fraude com muitos dados.

Atualmente, as operações fraudulentas podem utilizar algoritmos, aplicativos de inteligência artificial e programas de computador para controlar suas atividades, mantendo o controle de entradas e saídas e os relatórios para clientes precisos, o que evita causar desconfiança na base dos investidores.

Considerando tudo acima descrito, dá para entender por que há tantas ofertas de investimento nesses dias de Bitcoin como meio de pagamento emergente.

Sobre o autor

Fabio Cres é professor de Finanças e Análise de Investimentos e autor de livros sobre o assunto. Escreveu “Esquema Ponzi – como tirar o dinheiro dos incautos”.

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