Tatiana Revoredo: Criptomoeda do Facebook é o oposto do Bitcoin

Facebook pede registro da Libra no Brasil para oferecer serviços com criptomoedas
(Foto: Shutterstock)

A recém lançada moeda virtual do Facebook, a Libra, tem polarizado os players do ecossistema blockchain e de criptoativos.

Enquanto alguns acham que é bom para a indústria; outros não gostam do fato de uma grande Big Tech e grandes empresas do setor financeiro estarem usando uma tecnologia que deveria ajudar as pessoas se proteger do poder de mercado dos grandes players. Há, ainda, quem defenda não ser a Libra uma criptomoeda.

Fato é que, com apenas uma breve leitura do Libra White Paper, extrai-se que… a Libra possui um conceito bem oposto ao do Bitcoin.

Primeiro, porque a Libra não será um criptoativo puramente digital com valor flutuante; em vez disto, ela é projetada para manter um valor estável, seguindo a linha das stablecoins, totalmente apoiada por uma “cesta de depósitos bancários e títulos do tesouro de bancos centrais de primeira linha.

Segundo, porque a rede da Libra será permissionada, de modo que para se executar um nó validador na Blockchain, requer-se permissão.

Isto é, somente participarão da rede e poderão validar as transações da rede, as dezenas de empresas que compõem a The Libra Association– incluindo Facebook, Mastercard, Visa, PayPal, Uber, Lyft, Vodafone, Spotify, eBay, dentre outras. E cada um desses membros fundadores investiu certa de U$ 10 milhões no projeto.

Diferentemente, a rede do Bitcoin é não permissionada (é pública), o que significa que qualquer pessoa com uma conexão à Internet e o tipo certo de computador pode executar o software, ajudar a validar novas transações e “extrair” novas “moedas” adicionando novas transações ao Blockchain Bitcoin. Juntos, esses computadores mantém os dados da rede protegidos contra manipulação.

A Blockchain permissionada da Libra é, pois, mais vulnerável à censura, ataques cibernéticos e à centralização de poder, pois terá um número relativamente pequeno e limitado de participantes aptos a validar as transações.

Não se trata, obviamente, de uma Blockchain descentralizada. Pelo menos no início, já que a meta é a rede Libra se tornar pública quando for possível migrar para uma rede pública que seja comprovadamente capaz de fornecer a escalabilidade, a estabilidade e a segurança necessárias para suportar bilhões de pessoas e transações em todo o mundo.

Segundo consta do próprio White Paper:

“To ensure that Libra is truly open and always operates in the best interest of its users, our ambition is for the Libra network to become permissionless.

The challenge is that as of today we do not believe that there is a proven solution that can deliver the scale, stability, and security needed to support billions of people and transactions across the globe through a permissionless network.

One of the association’s directives will be to work with the community to research and implement this transition, which will begin within five years of the public launch of the Libra Blockchain and ecosystem”.

Agora, se os usuários exigirão que a Libra torne-se mais descentralizada, ou se a maioria nem se importará com isso porque preferem comodidade à privacidade, só o tempo dirá.

Facebook terá dificuldades

De todo modo, uma vez lançado o White Paper da Libra, fazer a rede funcionar é apenas o começo de uma longa estrada. E olha que muitos projetos de blockchain, com equipes excelentes, não conseguiram atender às expectativas, apesar de muitas tentativas.

Manter a rede Libra funcionando exigirá, ainda, o desenvolvimento de um sistema justo de governança, e o incentivo certo para convencer os usuários a adquirir a “Libra Coin”.

Aqui, vale mencionar que “ainda” a grande maioria dos consumidores não usam criptomoedas no seu dia-a-dia, apesar de existir um certo avanço. Quem sabe a escala maciça do Facebook, WhatsApp e Instagram, com sua base de usuários na casa dos bilhões, não ajude neste sentido.

Economicamente, há outras questões não respondidas como, por exemplo, quem decide sobre a precificação da libra e com base em que metodologia? E se a Libra escalar, com o potencial de rivalizar com funções desempenhadas hoje pelo dollar, como o Federal Reserve reagiria? E a SEC?

Outro aspecto interessante é: “se” e como a Libra passará pelo GDPR e outras leis de proteção de dados, considerando que se trata de uma moeda virtual capitaneada pela maior plataforma de publicidade e mídia social do mundo, adepta do “capitalismo de vigilância“. Isto é, uma corporação cujo modelo de negócio basicamente usa a coleta de dados para influenciar nosso comportamento futuro e obter lucro.

Por fim, apesar de ter feito um projeto bem ousado e comprometer-se em tornar-se descentralizado, fato é: tudo o que se tem até agora é tão-somente uma grande “expectativa” de como a Blockchain Libra será.

Sobre a autora

Tatiana Revoredo é Blockchain Strategist pelo MIT e cofundadora da The Global Strategy da Universidade de Oxford

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