Aos 10 de idade, qual a importância do Bitcoin como inovação?

Eu ainda me lembro dos cartazes de cartolina que fazia na escola para apresentar os trabalhos das matérias. Davam um bocado de trabalho: o espaço era limitado (uma cartolina só), as informações tinham que ser escritas a mão, imagens recortadas de revistas e coladas com cola branca.

(Foto: Joseph/Flickr)

A história da informação sempre foi pautada pelo meio sobre a qual residia: a informação oral vai sendo modificada ou se perde com o tempo, inscrições em pedra são mais duradouras, mas difíceis de reproduzir, livros precisaram da invenção da prensa de tipos móveis para se tornarem mais acessíveis. A invenção do computador mudou tudo.

(Foto: Ian/Flickr)

A partir do computador, recriar um texto, uma imagem ou um som se tornou trivial. Basta clicar com o botão direito do mouse e escolher “criar uma cópia”. Corrigir um erro no projeto técnico de um navio não acarreta mais no redesenho de dúzias de desenhos técnicos feitos a mão. Vender um ebook tem um custo desprezível para a Amazon, ou outra editora digital.

Nasceu, com o PC, a primeira parte do paradigma da abundância: o custo marginal de um bem digital é indistinguível de zero. Copiar qualquer coisa é tão barato, que cobrar por essa cópia parece não fazer mais sentido.

A segunda parte do paradigma da abundância veio com a conexão desses computadores entre si e o surgimento da internet. Se antes as enormes gráficas Heidelberg do jornal O Estado de São Paulo estavam se tornando obsoletas, a internet as condenou para uma aposentadoria muito mais precoce do que imaginavam os diretores do jornal ao comprá-las.

(Foto: Michael Scheinost/Flickr)

Editoras e redações eram responsáveis por criar conteúdo de alta qualidade, fazer o marketing para criar mercado, produzir os livros, revistas e jornais e, finalmente, garantir que esses itens chegassem às mãos dos seus clientes da maneira mais eficiente possível, fosse em São Paulo, fosse no Xixuaú, em Roraima.

Ao comprar uma revista em uma banca de jornal, sabemos que estamos pagando pela editoração, pelo papel, tinta, caminhões de entrega e pelo sustento do próprio jornaleiro. Em troca, temos algo em mãos que tem uma capa bonita, um peso reconfortante e uma impressão nítida e sem falhas.

(Foto: Shardayyy/Flicker)

Embora não apareça nem no Google Maps, Xixuaú hoje em dia tem internet de novo e os seus moradores podem escolher a informação que querem receber. Se a informação já era abundante, pois copiá-la era irrisoriamente barato, tornou-se universalmente disponível, pois a distribuição acontece em milissegundos e praticamente de graça.

Convencer esses moradores de que eles devem pagar por essa informação fica cada vez mais difícil. Afinal, é claro que existe um custo para gerar a informação. Mas cobrar pela distribuição dela não parece razoável. E, se o editor resolve colocar um paywall, há milhões de produtores de conteúdo voluntários em busca de mais um like no Facebook ou no Youtube.

Portanto, o paradigma da abundância reforça o que já sabemos intuitivamente desde criança: tudo o que é abundante perde o seu valor rapidamente. Básica lei de mercado: se a demanda é constante e a oferta aumenta infinitamente, o preço vai a zero.

E tanto isso é verdade que a Polaroid (ou alguém usando a sua marca que quase sucumbiu à era digital) criou uma câmera digital que imprime fotos em papel. Receber aquela foto quadradinha do seu amigo dá uma satisfação muito maior do que recebê-la no grupo da faculdade no Whatsapp.

(Foto: Xavavocê/Flickr)

O dinheiro não combina com a abundância digital

A segunda parte do paradigma da abundância é perfeito para o dinheiro: ter a capacidade de enviar (distribuir) dinheiro com a eficiência da internet é extremamente valioso! Se vendemos um carro, queremos ter certeza que o dinheiro já está em nosso poder antes de entregar a chave para o novo dono.

Se meu amigo está em apuros na Indonésia, quero que ele receba o dinheiro que eu enviei para ele o mais rapidamente possível. Colocar o dinheiro na internet é fantasticamente valioso!

Só que na internet, tudo é copiável, certo? E se tem algo que não queremos que aconteça com o dinheiro é que ele seja facilmente copiável. Governos são mestres em imprimir novas cópias de cédulas para financiar seus projetos e guerras. E a enxurrada de dinheiro novo torna o dinheiro em nossas poupanças menos valioso.  Então, como aproveitar a distribuição barata da internet sem a facilidade de cópia do meio digital?

A resposta tradicional para isso é colocar um auditor no meio: um banco, um software, uma fintech que garante que o dinheiro que Alice enviou para Bob foi subtraído do saldo da Alice e adicionado ao saldo de Bob.

Só que, para fazer seu trabalho bem feito, esse auditor, esse intermediário, coletará dados dos dois, adicionará um tempo de processamento ao trâmite e, claro, cobrará uma taxa pelos seus serviços.

O paradigma da escassez digital

Ao resolver o problema do envio do dinheiro digital de pessoa a pessoa (peer to peer, p2p), Satoshi Nakamoto fez muito mais do que criar o dinheiro vivo digital. Pela primeira vez na história foi criado um ativo ou bem digital que não pode ser simplesmente copiado ao infinito, mantendo a sua característica de transmissão na velocidade da internet.

O Bitcoin é o primeiro exemplo desse tipo de bem digital que quebrou o paradigma da abundância e trouxe o paradigma da escassez digital para a nossa realidade. E é essa escassez digital inerente às criptomoedas que as torna tão fascinantes: a partir da sua invenção, problemas antes insolúveis podem ser resolvidos. E soluções existentes para problemas importantes podem ser drasticamente melhoradas com essa nova ferramenta da escassez digital.

Uma vez que o artifício da escassez digital, representado cada vez mais pela palavrinha mágica “blockchain” é apresentado a um engenheiro de software, esse engenheiro não tem mais como ignorá-lo. Ao criar um novo sistema digital, o engenheiro terá que se perguntar qual é a melhor ferramenta para implementá-lo. E, cada vez mais, poderá chegar à conclusão que criptomoedas ou sistemas baseados em blockchain serão a solução mais adequada.

É difícil hoje em dia imaginar as consequências desse novo paradigma. Afinal, o melhor uso de certas inovações não está claro desde o início. Quem diria que o uso mais popular da internet é ver gatinhos fofos em tudo que é canto? Eu acredito que ainda não sabemos qual é o modelo de negócios nativo ao blockchain. Mas já podemos imaginar um pouco a escala da transformação que está por vir.

A valorização inacreditável do bitcoin, com sua característica de bolha, é um dos indícios de que transformações fortes virão. A febre das ICOs, que direcionou volumes antes nunca vistos para projetos de startups e a gigante atenção que corporações, governos e universidades têm dedicado ao tema são outros sinais importantes.

Então, se tem uma coisa da qual tenho certeza, é que o Bitcoin, ao quebrar o paradigma da abundância digital mudou o mundo fundamentalmente. E cabe a nós decidirmos como participar desse novo futuro que está sendo construído por nerds, hackers, economistas, libertários, engravatados, PhDs, deputados, auditores e todos os participantes desse ambiente fascinante que é a nova criptoeconomia!

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