A mandala do empoderamento: pirâmide financeira usa feminismo para dar golpe

Pirâmide financeira usa misticismo e discurso feminista para dar golpe em mulheres
Foto: Shutterstock

Um discurso de empoderamento feminino, apoiado por um misticismo new age de grupos chamados ‘Mandala da Prosperidade’ ou ‘Tear da Abundância’. Um círculo de mulheres dispostas a ajudar umas às outras a realizar seus sonhos. A promessa de investir R$ 5 mil e receber R$ 30 mil. 

Trata-se de um novo disfarce para o velho golpe da pirâmide financeira, que ganhou o apelido de mandala feminista. No caso, a estelionatária se vale do sentimento de pertencimento a um grupo de mulheres, cria uma relação de confiança e se aproveita disso para dar o golpe. 

Recém-chegada ao Brasil, depois de sete anos morando na Europa, a jovem paulistana S., que pediu para ter a identidade preservada, estava analisando possibilidades para aplicar suas economias quando uma amiga da família comentou sobre uma dessas mandalas.

“Fiquei enfeitiçada pela ideia de fazer parte de um coletivo de mulheres desconhecidas que ajudam a realizar os sonhos umas das outras”, diz.

O esquema funcionava por ‘camadas’: para entrar no nível mais externo da mandala, chamado fogo, é preciso fazer uma doação de R$ 5 mil. O dinheiro vai para quem que está no centro do círculo, a chamada “mulher água”. Ela então  apresenta ao grupo o desejo que pretende realizar com o dinheiro.

Ao ingressar, disseram à jovem que ela levaria um mês para chegar ao centro e receber as doações de outras oito mulheres, num total de R$ 40 mil.

Levando em conta o investimento inicial, o ganho final seria de R$ 35 mil, sete vezes o valor ‘aplicado’— ou 600% de lucro. Uma margem inatingível em qualquer aplicação financeira do mercado.

O problema é que a pessoa passa ter que recrutar outras mulheres para entrarem no esquema de doações. 

Para reforçar a ideia de laços e sororidade, há um compartilhamento de experiências entre mulheres por meio das tríades, como são chamados os grupos de apoio criados em torno da mandala.

Conforme o tempo passa, quem não consegue atrair mais mulheres para a mandala feminista começa a sentir o aumento do peso emocional da participação nos grupos. Quem tenta desistir, sofre ainda mais. 

Conforme S., eram ligações diárias, muitas vezes na madrugada, com conteúdos íntimos e intensos. Quando percebeu que havia entrado em um tipo de golpe e decidiu sair, a pressão psicológica se tornou cruel: 

“Diziam que eu não estava me comprometendo o suficiente, não estava colocando a energia necessária, por isso estava demorando para ter retorno. Era para fazer eu me sentir culpada”.  

Uma das dificuldades para combater esse tipo de fraude e punir os responsáveis é que o dinheiro é ‘doado’ para outra pessoa. Além disso, muitas vezes as pessoas não se reconhecem como vítimas e por isso não denunciam o golpe.

Estelionato afetivo e econômico

Para a advogada Gabriela Souza, especializada no atendimento a mulheres, esse tipo de comportamento, que se aproveita da boa fé de outra pessoa, funciona de maneira parecida com um estelionato afetivo. 

A estratégia de mirar em mulheres afeitas a coletivos feministas surte efeito nesse tipo de golpe porque, conforme Souza, esses grupos reúnem mulheres que carregam traumas anteriores. Portanto, mais vulneráveis a um discurso de empoderamento e apoio para superar inseguranças. 

Também se vende uma ideia de subversão do sistema econômico capitalista e patriarcal, como observa a pesquisadora de comunicação e gênero Pâmela Stocker, doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul:

“O esquema é cruel, principalmente por se utilizar de elementos muitos potentes do feminismo, como as ideias de horizontalidade, coletivo, cooperação e troca, que, em outros cenários, são capazes de trazer benefícios emocionais e psicológicos para as mulheres”.

De acordo com a professora de economia Izete Bagolin, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o modelo de economia colaborativa proposto pelas mandalas feministas não é sustentável.

Isso, porque depende de pessoas que façam doações sucessivamente até que todas sejam recompensadas. O movimento precisaria ser infinito, o que é impossível.  

“Não há possibilidade de esse sistema beneficiar todo mundo porque não está rendendo juros, não há capital inicial, portanto não existe lastro. O dinheiro só está trocando de mãos, então se alguém sai do círculo ou se ninguém mais entra, os demais simplesmente deixam de receber”, observa.

Cartilha da mandala do empoderamento

O Portal do Bitcoin teve acesso a uma apresentação do esquema das mandalas. Nele, não há promessas nem garantias de prazo: é preciso confiar que uma mulher confie na outra e doe dinheiro a uma desconhecida.

O desafio é romper com o sistema machista que impede o avanço feminino e quebrar o paradigma do mundo capitalista, baseado na recompensa. 

No material de apoio apresentado às novatas, há desde um misticismo new age, com argumentos que remetem aos quatro elementos da natureza, a referências do hinduísmo e da astrologia, sem deixar de fora as tradições xamânicas. 

O valor para entrar, de R$ 5.004, tem um significado. É o equivalente à quantia em dólar praticada no mundo todo, segundo o documento obtido pela reportagem. A dimensão global sugere credibilidade ao sistema, cuja origem é atribuída a “uma mulher canadense que viveu na África nos anos 80”. 

Como o sistema precisa sempre atrair mais mulheres para a rede, essa é a tarefa de quem vai para o segundo nível da mandala, quando a pessoa vira “mulher vento”. Isso acontece quando todas as “mulheres fogo” fazem a doação e a “mulher água” sai do círculo — e com todo o dinheiro. 

Nesse estágio, a mandala se divide em duas, para que as duas “mulheres terra” ocupem o centro das novas mandalas, fazendo com que as demais também se movam dentro do círculo. Então, a pessoa vira “mulher vento” e precisa trazer duas mulheres para ocupar os novos espaços de “mulher fogo” que se abriram. 

O nível seguinte é da “mulher terra”, que tem responsabilidades nos grupos de apoio emocional criados para manter o vínculo de confiança entre as componentes.

A líder organiza encontros, divulga a mandala e aconselha as novatas, principalmente quando surge a dificuldade para atrair novas irmãs. São as forças externas — machistas — que tentam destruir o movimento.

Se alguém oscila, é porque ainda não está preparada para receber a recompensa e precisa trabalhar mais por suas irmãs para chegar à vibração perfeita. 

Sob forte estresse psicológico e talvez em dificuldade financeira, algumas percebem que foram enganadas. Ou não.

A jovem paulistana S., que saiu do grupo após três tentativas frustradas de receber seu dinheiro de volta, tentou alertar outras integrantes da rede, mas elas não lhe deram ouvidos.

“Elas estão certas de que isso é uma coisa boa, tentaram me convencer de que a culpa era minha, que eu não estava fazendo minha parte para receber a recompensa, que se eu ficasse no círculo até o fim eu iria conseguir”, diz S.

Após a saída do círculo, o distanciamento foi automático, o que fez aumentar a decepção:

“Toda aquela proximidade, que era tão intensa e parecia tão sincera, era efêmera”.

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